“O teste de Daniels”

Drika Yar

A porta abriu-se lentamente, dando passagem a um homem de meia idade de estatura média, com os cabelos levemente prateados, o qual carregava em uma das mãos um pequeno dispositivo portátil de leitura e manipulação de dados.

Seus olhos escrutinaram a sala metálica e mal iluminada. Dentro do claustrofóbico recinto, havia apenas uma cadeira, uma mesa, e uma coisa, que remetia a uma pessoa em posição fetal acorrentada à parede diametralmente oposta à porta.

Antes de se sentar, o inquisidor fitou a criatura diante de si por alguns segundos em silêncio. Suas pupilas desabrochando como o obturador de uma arcaica máquina fotográfica.

Seu trabalho consistia em aplicar o teste sempre que a natureza de um indivíduo fosse questionada. Era o que permitia separar o joio do trigo. Heróis de covardes. Homens de seus brinquedos.

Sim. Os tempos mudaram, o ser humano conquistara as estrelas, e outros sistemas solares, mas sua essência mantinha-se a mesma.

Insegurança. Inveja. Desafeto. Estes sentimentos persistiam em levar o homem ao seu pior.  Tal como na Idade Média, delações ocorriam. E quando isso acontecia, os inquisidores eram chamados – pessoas comuns, como tr’An  – que havia sido treinadas para se desapegarem do que suas pupilas captavam, a fim de executarem à risca, o procedimento padrão, tomando por verdade o resultado do experimento.

Seu mundo, como inquisidor, se resumia a fatos e dados.

Porém, aquele era um caso peculiar.

A via de regra, nunca haviam lhe informado previamente qual o resultado esperado do teste. Mas aquele espécime era especial. Talvez o autômato mais inteligente que já existira. Os dois inquisidores anteriores não haviam chegado à conclusão alguma – perdidos entre os resultados pseudo-inconclusivos.

Agora, era seu trabalho verificar o que de fato era a criatura a sua frente: humano ou androide.

O futuro daquela coisa encolhida no canto da sala estava em suas mãos.

O inquisidor pousou o dispositivo sobre o tampo da mesa enquanto a criatura estudava-o em silêncio.

– Bom dia – Disse o inquisidor ao ligar o dispositivo, a fim de gravar a sessão. – Sou o Doutor Scender.

– Meu nome é K’Lab. – Respondeu a criatura sentando-se. – Mas você já sabe disso, não é?

O inquisidor assentiu, e baixou os olhos enquanto tomava notas em seu dispositivo.

– O que… – Indagou K’Lab com uma voz aflita. – O que vai acontecer comigo se eu não passar nesta bateria de entrevistas?

Boa pergunta, refletiu o inquisidor. Infelizmente, ele não podia oferecer qualquer tipo de resposta sincera ao entrevistado. Pelo menos, nenhuma que aplacasse sua ansiedade.

 – Cada um de nós tem uma função em nossa sociedade. Dependendo do resultado, você pode ser designado para outra atividade.

K’Lab inspirou profundamente cerrando os olhos por um segundo.  Pelo visto a explicação do médico não havia lhe dado nenhum conforto – muito pelo contrário. Agora, apertava as juntas de uma mão com um polegar, e depois a outra.

Scender tomou mais algumas notas antes de fitar novamente a criatura diante de si. Será que K’Lab sabia que seria submetido a uma variante do teste do Dr. A. Daniels?

O teste de Daniels era uma evolução do teste de Turing cujo propósito era identificar se uma máquina podia se comportar como um ser humano. Segundo Turing, o observador deveria interagir com a inteligência artificial (IA) para verificar se o comportamento condizia com o esperado por um ser humano, e se a IA seria capaz de perceber sua natureza artificial ou não.

Por outro lado, a abordagem de Daniels, a qual raramente era aplicada, consistia em inserir a IA entre humanos e deixar que interagisse por algum tempo. Ao fim da interação, todos deveriam identificar quais eram, de fato, humanos, e quais eram artificiais.

O teste também era capaz de avaliar se a IA havia atingido consciência, o que acontecia, se, e somente se, a IA descobrisse sua natureza artificial, e que ela mesma estava sendo testada.

Esteja preparado para o improvável! – Advertira seu chefe.

O médico aprumou-se na cadeira, de forma inconsciente. Era chegada a hora de começar o longo interrogatório.

A conversa avançou lentamente através de perguntas simples e curtas. Nome. RG. Data e Local de Nascimento. Nome dos pais. Endereço. Signo. Estado civil. Preferência sexual. Cor preferida. Comida preferida. Esportes que pratica. Hobbies. Último livro que leu. Pontos fortes. Defeitos. Sonhos e expectativas. Medos.

Scender fez uma pausa. Reabasteceu o nível de água em seu copo. Pediu que trouxessem uma cadeira para K’Lab, que optou por uma xícara de chá.

Hora de recomeçar.

– Você se julga um ser vivo? – Scender perguntou ao erguer a sobrancelha direita.

– Claro! – A voz firme dele carregava algo diferente.

– Se você tem consciência própria, ou caso acredite nisso, uma alma, como poderia demonstrá-lo?

Apesar de seu teor filosófico, a pergunta era padrão. A partir dela se iniciaria uma discussão que consistia do core – do núcleo – do teste.

– Se eu não fosse real, esta pergunta não me incomodaria.

– Não se tivesse sido programado para isso. – Contra-argumentou o inquisidor.

– E a você? Não incomoda esta situação? Afinal, sua decisão será pautada naquilo que você percebe, e não naquilo que é. Não existe como eliminar totalmente a subjetividade de uma tomada de decisão. O ser humano é tendencioso, de uma forma, ou de outra.

– Não sou tendencioso.

– Se percebesse isso, não o seria. – K’Lab tomou um gole de chá antes de prosseguir. – Mas, como não assume essa possibilidade, você está se predispondo ao erro.

Ironicamente, a criatura era capaz de discutir de forma bem elaborada, esquivando-se de responder as perguntas arremessadas em sua direção.

– Errar é humano! – Proferiu Scender.

– Será? Errar ao preço de vidas humanas não deveria ser.

– Você fugiu do foco da entrevista.

– Fugi. E o que você vai fazer? Tomar notas sobre meu comportamento antissocial e como isso poderia refletir o de um autômato? Me prender e me jogar numa cela? – K’Lab indicou a sala metálica a seu redor. – Estou ansioso pela mudança de ares.

– Se lhe contar como o teste é aplicado, ou como os resultados da entrevista são analisados, o teste perderia sua função.

– Não sei explicar o que sou.  – O entrevistado parecia ter se resignado a sua condição de ignorante frente a ciência envolvida naquele procedimento experimental. – Sinto que sou.

Scender fitou-o incrédulo. Por um segundo pensou ter conseguido retornar a linha de raciocínio da entrevista.

– Diz aí, doutor? Como passou no teste? O que disse para que o seu entrevistador lhe considerasse humano?

– Não estamos falando de mim.

Scender lembrava vagamente de seu teste. Não necessariamente do que respondera. Seus olhos esverdeados se fixaram na tela em branco de seu dispositivo. O teste de A. Daniels era um dos momentos mais importantes da vida de qualquer ser humano.

E porque Diabos não se lembrava do seu?

Haviam fragmentos. Imagens distorcidas e estilhaçadas. Míseros fractais. Mas nada representativo. Apenas o borrão distorcido do rosto de alguém dando tapinhas em suas costas e dizendo que ele havia sido aprovado.

Ainda assim, se lembrava de cada teste que aplicara.

Sua mente ia e vinha correndo de um lado para o outro. Roubando a atenção que deveria estar focada no teste de K’Lab e não em suas experiências passadas.

Mas a cratera abissal estava lá. E isso lhe deixava alheio a realidade a sua volta, como se as memórias fossem alheias.

O médico piscou e tornou a consultar a pauta da entrevista – uma longa lista de perguntas e insinuações a serem seguidos nas próximas horas.

Sua pulsação havia aumentado.

Não se sentia bem.

– Fale-me sobre sua infância – reiniciou Scender mantendo a voz distante.

Como esperado, as perguntas foram apresentadas, mas não necessariamente respondidas pelo entrevistado.

Lentamente, a sensação de desconforto aumentava.

Mãos frias. Suor brotando de suas frontes.  O coração apertado no peito. O tique nervoso indo e voltando.

E do outro lado da sala, só havia o vazio de uma existência que não era.

Finda a interminável lista de perguntas, o médico se levantou, colocando o dispositivo de volta no bolso do jaleco.

Os olhos do prisioneiro buscavam qualquer sinal de clemência, de compreensão, de esperança.

Humanos não confiavam em autômatos, especialmente, se eles tivessem consciência.

Se fosse considerado uma IA seria ejetado para o espaço sumariamente.

– Você não vai me dizer o resultado?

Scender já estava quase na porta da sala quando foi interpelado por K’Lab. O inquisidor não se dignou a se virar, simplesmente fitou-o por cima do ombro esquerdo. Seu olhar era tão frio que causara um arrepio em K’Lab.

 Sabia da importância de sua análise, mas isso pouco importava agora. O laudo já havia sido elaborado. Não precisara usar de qualquer meio mais persuasivo para obter as respostas para as suas perguntas.

Aliás, a ausência de respostas é o que lhe guiara à conclusão que tanto lhe incomodara segundos antes.

Pousando a mão sobre o leitor biométrico, o inquisidor destravou a porta.

– Bon voyage!  – Scender anunciou ao deixar o depósito de lixo que lhe servira de sala de interrogatório.

Tão logo a porta se fechara atrás do inquisidor, as algemas de K’Lab caíram no chão, desativadas.

Um ruído forte metálico anunciou o desfecho enquanto uma das paredes da sala se movia, expondo o recinto e seu ocupante ao frio absoluto do espaço profundo.

Do outro lado da porta, Scender observada a cena.

Sua decisão havia sido pautada na lógica. E a lógica podia ser tão traiçoeira quanto a falta dela.

E a única explicação plausível era que um deles era humano e o outro uma inteligência artificial dotada de consciência.

Mas quem era o quê?

O resultado do teste de K’Lab havia sido inconclusivo. Porém, enquanto fazia as perguntas a ele, Scender também fazia as mesmas a si. E, não gostara nem um pouco das respostas que encontrara e das que não encontrara.

Por fim, percebeu que se fosse um androide, não seria capaz de infringir as leis da robótica. Ou seja, não pode ferir um ser humano ou permitir que este sofresse algum mal. Não poderia seguir ordens que colocassem em risco ou ferissem um ser humano. E deveria ser capaz de abrir não de sua própria existência, para a proteção de um ser humano.

Ser humano era ser capaz de matar outra pessoa.

Foi isso que acabara de fazer. Condenara alguém a um fim monstruoso.

Mas, e se ao desenvolver emoções, um androide considerasse sua existência tão valiosa quanto a de um ser humano? E, se o desenvolvimento de uma consciência por uma inteligência artificial o aproximasse tanto de um ser humano ao ponto de evoluir para a desobediência às leis divinas da robótica?

Esta última pergunta permanecia sem resposta em sua mente.

– Foda-se!

Sobre Drika Yar

A autora nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1971. Curiosa e questionadora, sempre buscou formas diferentes de olhar para as coisas a sua volta, talvez, daí tenha surgido o interesse pela área de exatas. Seu gosto pela leitura e, posteriormente, pela escrita aflorou ainda na adolescência em meio sua fascinação por ficção científica, bem como, pelos contos e lendas das Eras Antiga e Medieval.
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