“Um Natal como no comercial de margarina”

Drika Yar

Hoje é Natal!

Mas este será o meu primeiro Natal nesta casa. Sabe, eu nunca imaginei que minha vida fosse mudar tanto neste último ano.

Ganhei uma casa nova, e com ela, uma cama nova, muito carinho e atenção.

Sou jovem. Uma adolescente no ápice de seus dois anos de idade.

Pois é, sou uma Boxer, e meu nome é Kiki.

Quando eu era bebê, morava numa fazenda… e o tempo era pouco para tantas alegrias e diversão. Um dia, minha matilha se mudou e trocamos os campos verdes por uma casinha na cidade… tão pequenininha que quase cabia na minha pata.

Um a um os meus irmãozinhos foram embora. Cada dia aparecia uma pessoa diferente e levava um deles. Chorei muito nos primeiros dias…, mas depois, a minha dona, a quem eu considero a Alfa da minha matilha (afinal é ela quem tem sempre a última palavra, né?) disse que eles estariam melhor com os novos donos.

Ué, se era para melhor, porque eu não sempre ficava pra trás quando iam buscar um filho-te? Será que era por ser grandona e desajeitada? Mas eu não tenho culpa se derrubava as visitas quando ir dar boas-vindas com um beijo (ou melhor, lambida) na cara delas.

Quando fiz aninho perdi as esperanças de ser adotada. Quem iria querer uma cadela como eu, que não era mais um bebê? Mas um dia, foram me buscar para ver a nova visita. Sai correndo que nem uma doida. Eu até que pensei em não dar boas-vindas do meu jeitinho meigo e delicado, mas a visita, uma jovem de cabelos da mesma cor do meu pelo, me aguardava agachada e com os braços abertos agitando as mãos em sua direção, como se me chamando.

Não resisti.

Saltei em cima dela, e num segundo estávamos as duas caídas no chão. De um lado, ela rindo e afagando a minha barriga, e eu, do outro, abanando o rabinho e esticando o pescoço pra ganhar carinho.

Caramba, não tinha reparado até agora que a jovem que me adotou parece comigo. Gosta de brincar, e de correr. E adora carinho. A Ruiva é a minha Alfa agora.

Isso aconteceu no início do ano. No começo, eu estranhei a nova casa e a rotina da Ruiva. Todos os cheiros eram diferentes aqui. A casa era mais viva e alegre. E eu tinha que tomar banho toda semana. Gosto de banho, mas não de perfume. Fico espirrando o dia todo, principalmente quando usam um tal de ‘Pom-Pom’.

O mais importante é que aqui, no meu novo lar, eu não tinha que dividir atenção dela com outros cães e gatos como eu fazia na minha antiga matilha. Somos, ela, eu e o Papi – o namorado da Ruiva. O Papi é muito legal. Esta semana, ele está tentando me adestrar com pipoca. E imagina se eu não gosto. Hahahaha!

Apesar de tudo ser melhor aqui, nas primeiras semanas eu tinha muito medo que alguma visita me levasse embora como tinha acontecido na minha casa antiga, mas agora, sei que este é o meu lar. Tenho uma caminha no quintal da frente da casa, de onde posso observar a rua e cão-versar com meus amigos, e outra que fica no chão ao lado da cama da Ruiva.

Ás vezes passo as tardes sentada ao lado do portão uivando para meus amigos caninos em papos bem divertidos. Isso quando a Ruiva não está em casa, pois aí eu só quero saber de ficar ao lado dela. Nem me importo o que ela está fazendo ou onde está. Aninho-me a seus pés e fico lá. Gosto de ficar perto dela. A minha Alfa tem uma energia boa, e está sempre fazendo carinho em mim. Toda semana, após o banho, eu tenho permissão de subir no sofá e me refestelar ao lado da Ruiva. Basta pousar a cabeça em seu colo macio que já surge aqueles dedinhos com as unhas pintadas pra me fazer cafuné.

Gente, amo muito tudo isso!

Hoje, estou numa ansiedade tremenda pois é Natal. Não que eu saiba o que seja isso, mas a casa foi toda decorada com um monte de coisas penduradas e com barulhinhos estranhos. Tô tendo que me controlar pra não esbarrar as patinhas ou o focinho nos pingentes daquela coisa parecida com uma árvore que está no cantinho da sala. Acho que depois que todo mundo for dormir, eu posso ir lá xeretar, né?

O cheiro que vem da cozinha também é bom demais. A Vovó passou o dia na cozinha com a Ruiva preparando um monte de gulodices. Só de pensar naquele pedação de carne que colocaram no forno eu já começo a babar.

Ué, você não sabia que Boxer babava? Tolinho!

Mas como eu ia dizendo, a Ruiva e o Papi estão nervosos desde cedo. Volta e meia um deles se senta no sofá, me chama, faz um cafuné, e pede pra eu me comportar. Por que eu não sei, e eles não falam.

É óbvio que eu vou me comportar. Bom, quer dizer, isso até as visitas se sentarem no sofá. Aí, eu pulo em cima e cumprimento. Não posso ser mal-educada, posso?

A noite chegou e nada dos presentes que a Ruiva tinha falado a semana inteira. A Vovó ligou o rádio e uma música bonitinha saiu das caixas de som que ficavam ao lado do rack da sala. Tentei cantar, e meu uivo devia estar bem afinado por que todo mundo riu, bateu palmas e afagou minha cabeça, dizendo “Que bonitinha! ”.

Foi nessa hora que escutei o ronco do motor do Papi virando na esquina da rua aqui de casa. A Vovó abriu uma frestinha da cortina e espiou pela janela. Pelo sorriso dela, algo bom estava para acontecer.

Quando o ronco do motor cessou, meu pelo ficou todo em pé. Havia alguém com o Papi no carro. E tinha um cheiro esquisito, igual ao do perfume que borrifavam em mim quando eu saia do banho.

Com algo no colo, o Papi entrou em casa sorrindo e dando um beijo na Ruiva, entregou-lhe o que carregava. Esperta que só eu, sentei-me ao lado da vovó e fiquei a observar tudo. Era o meu primeiro Natal e não queria perder nem um detalhe.

Gatos mordam meu rabo cotó!

Ué, não era pra ser um dia feliz? Então por que a Ruiva olhava pro troço que o Papi deu a ela e chorava. Mas antes que eu pudesse saltar pra ver o que estava rolando, a Ruiva agachou-se ao meu lado, e me mostrou o que estava no colo dela.

Era um bebê-gente. Não daqueles pequeninhos que só choram e choram. Este era maiorzinho, e já batia as palminhas e ficava de pé sobre as duas patinhas traseiras. Ao me ver, aquela coisa que nem pelo na cabeça tinha direito já foi esticando a mãozinha pra me fazer cafuné! Outra paixonite à primeira vista!

Foi aí que eu entendi tudo.

A Ruiva tinha adotado uma criança… uma criança só pra mim! Pra correr atrás de mim, brincar comigo. Fazer carinho – eu nela e ela em mim. Brincar de cavalinho! Brincar de jogar-e-buscar o ossinho de corda.

Uau!

Aquele era o meu presente de Natal.

E aquele Natal era o mais feliz da minha vida!

– Auuuuuuu!

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“O primeiro Cavaleiro”

Drika Yar

A Terra Santa era, acima de tudo, inóspita.

Karīm Ibn Maħmūd al-Azīz, o líder dos infiéis, cuspiu sobre seu rosto com desdém. O infiel esbravejou algo ininteligível, depois lhe disse um latim rudimentar que aquilo era só o início. Prometeu caçar e matar todos os europeus que ali colocassem seus pés. Clamava vingança, pois um cavaleiro havia raptado, violentado, e depois matado sua única filha.  

Por Alá, ele iria se vingar.

E começaria pelo velho diante dele.

O velho cavaleiro cogitou contra-argumentar. O infiel tinha motivos mais do que suficientes para desejar vingança. Infelizmente, ele e seus homens não eram os vilões. E mesmo se o fossem, vingança não traria a filha de Al-Azīz de volta. Qualquer tentativa de diálogo estava fadada ao fracasso.  O infiel tinha o olhar de um predador, e não descansaria enquanto não saciasse sua fome doentia por vingança.

O chicote de finas tiras de couro impactou contra suas costas mais uma vez. O cavaleiro fechou os olhos por um segundo, suspirando entre um espasmo e outro de dor.

Seu corpo estava dilacerado. Clamava por descanso. Mas su’alma empurrava-o adiante. Não se renderia a eles. Não iria gemer. Não daria este prazer a seus captores. 

Até quando aguentaria?

O líder dos infiéis sorriu sadicamente, e o torturador balançou o açoite no ar.

Seus olhos se fecharam com mais uma chibatada da nova sessão de tortura. Tinha que manter a razão. Precisava manter-se acordado, lúcido. Ele abriu os olhos e sorriu. A imagem de um anjo formou-se diante dele.

Estou morrendo, pensou. Eis que o Senhor enviou anjos para me recepcionarem.

A criatura alada aproximou-se e sussurrou-lhe algo.

Suas pálpebras pesaram, e quando abriu os olhos o anjo não estava mais lá.

Seu destino, bem como o de seus homens, estava traçado. Morreria em questão de minutos, talvez horas.

O cavaleiro se recordou de sua captura, tão logo deixaram a proteção das largas muralhas de pedra da cidade prometida.

Haviam sido traídos. Isso era certo!

Mas por quem?

Seu infortúnio havia começado quando um jovem e ambicioso monge havia lhe convencido sobre a necessidade de levar os cristãos a voltarem a acreditar em Deus e a lutar pela reconquista e manutenção dos territórios da Terra Santa.

Entre uma e outra conversa, o religioso havia sugerido que somente um grupo formado por nobres cavaleiros seria altruísta o suficiente para realizar esta jornada épica. A missão confiada a eles era bem simples: escavar um local específico em busca de um artefato único e místico, o cálice da Santa Ceia.

Temendo que as mortes por ele impetradas durante o calor dos combates da primeira cruzada o proibissem de atravessar os portões celestiais, o velho cavaleiro havia convencido outros oito nobres a o acompanharem à Terra Santa nesta cruzada sagrada.

O Rei de Jerusalém, a quem chamavam de Patriarca, fora extremamente solícito, ao recepcioná-los anos antes e ao permitir que ele e outros nobres se instalassem nas estrebarias de uma antiga mesquita da cidade, onde, diziam os antigos, jaziam as ruínas do Templo de Salomão.

A fim de ocultar seu real propósito, haviam dito ao Patriarca de Jerusalém que almejavam patrulhar as rotas por onde os peregrinos rumavam a Jerusalém para assegurar-lhes uma passagem segura.

Após anos de privações em meio ao calor escaldante e a dupla jornada de patrulhar as rotas dos peregrinos de dia e escavar os escombros do antigo templo à noite, eles haviam finalmente encontrado o que buscavam. 

Estavam retornando para França a fim de entregarem a regalia sagrada ao jovem monge quando foram capturados e arrastados para as ruínas de uma antiga fortaleza.

Assim como ele, seus homens sofriam subjugados pelo inimigo. Foram despidos e presos a cavaletes de madeira, onde ficavam de joelhos sobre o chão pedregoso com o pescoço e os punhos presos. A situação em si era irônica.  Afinal, aquele instrumento era usado por cruzados para imobilizar os infiéis, intimidando-os e causando inicialmente desconforto, e posteriormente dor, mesmo quando a sessão de tortura era interrompida.

Mais um pecado pelo qual pagamos sem sermos os culpados, ó Senhor!

Al-Azīz gritou algo num dialeto que ele não conhecia e indicou com a cabeça algo que pendia sobre a mesa. O carrasco se afastou, largando a cimitarra com a qual ameaçava cortar lhe a mão direita, sumindo nas sombras por um segundo e retornando com um tipo mais elaborado de chicote, cujas tiras exibiam nas extremidades pedaços de pedras afiadas.

O chicote lhe dilacerou a pele das costas mais profundamente desta vez. Um a um, os outros cavaleiros foram submetidos ao mesmo augúrio. Seus urros de dor e frustração infringiam ainda mais pesar na alma cansada do velho cavaleiro.

Com um sorriso maquiavélico, Al-Azīz retirou o cálice sagrado de uma das sacolas e coletou o sangue que escorria de suas feridas com a regalia sagrada. Sempre rindo de maneira doentia, o infiel fez o mesmo com todos os outros cavaleiros.

Após ter recolhido seu sangue, o infiel gargalhou e ofereceu o conteúdo do cálice aos cavaleiros que estavam a vários dias sem água. Para matarem sua sede, um preço deveria ser pago: eles teriam que abençoar o conteúdo da taça com uma oração em latim, demonstrando heresia e falta de respeito pelo sagrado.

Estavam mortos. Seu corpo não resistiria. As palavras de seu algoz eram interrompidas por diversas perdas de consciência. Precisava liberar seus homens de qualquer culpa. Se alguém teria que fazê-lo, ele seria o único a ir ao Inferno por este pecado. 

 – Fazei de mim vosso instrumento. – O velho cavaleiro orou em latim. – Não por nós, Senhor, mas em nome de Tua Glória.

O conteúdo do cálice foi derrubado sobre sua boca, e ele desfaleceu enquanto seus homens repetiam bravamente a oração por ele proferida.

O cavaleiro ergueu os olhos mais uma vez.

Suas forças se esvaiam.

Eles o perfuraram com uma cimitarra no abdômen. Rindo, o desamarraram e o retiram do cavalete, jogando seu corpo inerte no chão arenoso.

Os demais cavaleiros mantiveram o olhar fixo em seu mestre durante seus minutos finais. Não desviaram o olhar. Morreriam como homens, não como ratos. Eram, acima de tudo, cavaleiros. Lutariam até seu último sopro de vida. E um a um, eles foram estocados com a cimitarra e seus corpos abandonados ao redor da sala de tortura.

Os infiéis voltaram para amarrar o corpo do líder dos cavaleiros a um cavalo para deixá-lo ao sabor das aves de rapina.

Afastando seus homens, Al-Azīz se abaixou para examinar melhor o corpo do defunto.

Agindo por instinto, o cavaleiro apanhou um punhado de areia e jogou sobre os olhos de Al-Azïz. Em meio a sua falta de orientação, o cavaleiro puxou uma pequena adaga do cinto do infiel e o esgortejou. Estupefatos, os demais não foram capazes de reagir ao ataque do velho cavaleiro.

Sem titubear, o velho cavaleiro avançou contra seus opressores, matando-os um a um. Somente depois de ter eliminado os infiéis, o cavaleiro sentou-se sobre um tronco caído para examinar seus ferimentos.

Diante de seus olhos incrédulos, as feridas de seu corpo se fecharam miraculosamente.

Não podia entender o que havia acontecido ali. Como Deus poderia ter intercedido?

Foi então que seus olhos esbarraram em algo caído no chão. O cálice sagrado. O mesmo cálice que havia sido profanado com o sangue deles havia lhe curado as feridas.

Deus o havia salvo por um motivo. Iria manter sua promessa. Enquanto vivesse, ele e os homens sobre seu comando se converteriam a santa Igreja, tomariam o hábito para lembrar-lhes de que seus votos eram perpétuos, e trabalhariam dia após dia para zelarem pelo bem-estar daqueles que peregrinavam pela Terra Santa.

Fundaria uma Ordem.

Uma Ordem de Monges Guerreiros.

Uma Ordem de Cavaleiros.  E assim o fez, Hugues de Payens

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FLIM – 3ª Mesa Literária “E tu? Sou o tempo em versos!”

Daqui a pouco, às 15h, vai começar a 3ª Mesa Literária da FLIM, entitulada “E tu? Sou o tempo em versos!”, no Parque Vicentina Aranha!

Corre que ainda dá tempo!

Espero vocês lá! ;)

#FLIM2019 #drikayar #lilioliveira #dilabento #helencoppi #boranogueira #sandro #FLIM #festaliteromusical #parquevicentinaaranha #entradafranca #culturaparatodos #falasériomaispoesia

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“A Guardiã”

Drika Yar

Natureza era algo que não faltava a sua volta.

Os veículos ficaram estacionados ao lado de uma cachoeira, enquanto o grupo formado por doze membros da irmandade e três convidados, se embrenhava pela mata.

Após alguns minutos de caminhada pela floresta, a mata se fechara sobre a trilha. Era impossível segui-la sem olhos bem treinados. Por uma hora se esgueiram por um tênue caminho de terra batida, até que o grupo parou diante de uma ampla clareira delimitada por pinheiros e cedros. No centro da clareira, havia sido construído um pequeno círculo com pedras roladas de rio.

Em segundos, os membros da irmandade trocaram suas roupas de caminhada por largas vestes brancas, e sobremantos coloridos.

Descalços, os membros da irmandade pareciam imunes à brisa gélida que os acoitava. Tochas haviam sido acesas e colocadas em cada um dos portais que marcavam os pontos cardeais.

Homens e mulheres se deslocaram pelo interior do círculo, ao ritmo de um pequeno tambor, intercalando-se ao longo do perímetro do círculo, equilibrando o fluxo de energia masculina-feminina.

De súbito, o retumbar do tambor cessou, anunciando o início da fase de preces, músicas e exaltações.

Onde estava com a cabeça quando aceitara o convite? Até cerca de uma hora atrás, nunca havia visto aquelas pessoas, mas ainda assim sentia que as conhecia há muito tempo. Sentia se confortável a volta deles.

Misteriosamente, os acontecimentos dos últimos e meses haviam se desenrolado como se qualquer caminho que tomasse sempre convergisse para o mesmo local no tempo e no espaço.

De certa maneira, toda sua vida havia sido assim. Era como se ela buscasse algo, mas não soubesse ao certo o quê, ou por quê.

Ao longo dos anos, livros caíram em seu caminho, trazidos por pessoas diferentes sempre ao mesmo tempo. Por vezes, entrara em lojas de joias, e saíra com um bracelete ornado com nós celtas, o qual adquirira numa compulsão extremamente irracional.

Até três noites atrás, ela não imaginava que presenciaria um ritual tão antigo. A Velha Religião era tão ou mais antiga que a humanidade no Velho Continente, mas quase desconhecido em solo tupiniquim.

Apesar do fascínio pela Velha Religião, ela nunca havia se afiliado a nenhum grupo. Tinha uma postura discreta. Somente aos amigos mais íntimos admitia seu interesse no tema. Preferia manter-se no anonimato, como uma observadora. Como aquelas pessoas haviam descoberto sua existência era um mistério.

Certa noite, ela recebeu um telefonema de um desconhecido convidando-a para assistir ao ritual. Sem titubear, ela aceitou o convite. Era como se conhecesse o interlocutor há séculos.

O vento congelante trouxe sua mente de volta à realidade. Além dela, outras duas pessoas estavam ali, sentadas diante do círculo de pedras, para assistirem ao cerimonial que se iniciava.

Ela puxou uma manta sobre seus ombros, tentando manter-se aquecida.

No círculo, uma bruma desceu sobre os membros da irmandade, intensificando a sensação de que alguma coisa grande estava para acontecer. A medida que os cânticos se intensificavam, e a magia começa a permear a noite, os outros dois visitantes se levantaram e balbuciando uma desculpa esfarrapada, recolheram suas coisas e se embrenharam na mata, como se fugissem de uma assombração, deixando-a sozinha do lado de fora do círculo.

Uma a uma, as sacerdotisas ergueram os braços dando início ao ritual, evocando a proteção dos elementos e a presença de seus elementais.

Ao Norte, no elemento terra, uma borboleta surgiu e, ao tocar o solo, transmutou-se em fadas, duendes e gnomos. No portal do Oeste, uma onda ergueu-se de uma taça de cristal e uma pequena cauda de sereia fez se mostrar. No Sul, o portal do fogo, a batida de um cajado sobre o chão batido de terra fez voar línguas de fogo que acenderam a majestosa fogueira. No Leste, o elemento ar se apresentou através da fumaça um turíbulo que dançava, revelando a forma de elfos esguios e pequenas serpentes de ar.

Na fogueira, as labaredas pareciam vivas, como se pulassem de um lado para o outro acompanhando a melodia dos cânticos.

O frio e cansaço se abateram sobre a visitante. Suas pálpebras tremularam ao tentar manter-se acordada. Seu corpo ia para frente e para trás, como um brinquedo de criança.

Olhou o poste diante dela. Inconscientemente, ela havia se posicionado ao lado do pórtico sul do círculo de pedras, o portal do elemento fogo. Nem mesmo as várias tochas fincadas no poste e no chão do círculo ajudavam a lhe esquentar ou superar a tremedeira de frio.

Ela se encolheu ainda mais em seu banco, fechando a manta sobre seu tórax.

Algo estava errado. Talvez devesse ter fugido como os outros dois.

Seus pés estavam formigando, dormentes. À medida que o ritual se desenrolava a sensação se intensificava. Mexia os pés de um lado para o outro, buscando melhorar a circulação em vão.

Em segundos, o formigamento já havia se alastrado até seus joelhos, e agora avançava por suas coxas. Sentiu-se enjoada, com vontade de vomitar. Era um alívio que não comera quase nada. Sua euforia lhe tirara a fome e ela havia apenas consumido apenas frutas e uma sopa leve de legumes na hora do almoço.

Seus olhos se fixaram na imensa fogueira no centro do círculo. Algo estava se mexendo ali. Ela apertou os olhos, desfocando a visão para enxergar melhor.

Pequenos seres na forma de gotas de fogo saltavam de um lado pra o outro das chamas. Eram salamandras.

Ela respirou profundamente, buscando se acalmar. Sabia que era capaz de alterar seu estado de consciência, mas nunca imaginou que a simples proximidade com um círculo ritualístico pudesse catapultá-la para tal estado.

A fumaça do incenso ao seu lado serpenteava pelo ar, desenhando formas estranhas, como uma mão que gesticulava, chamando-a.

Sentira uma nova onda de náusea tomar seu corpo.

O ambiente a sua volta tornara-se turvo e enevoado. Sua consciência, que flutuava sobre seu corpo inerte, adentrou no círculo.

Não estava mais na floresta.

Fora transportada para outra época, para outro lugar.

Os membros da irmandade a aguardavam alguns metros a diante. Ela vestia a mesma túnica que eles, mas seu sobremanto era vermelho. Em suas mãos carregava um cristal em formato de ovo com aspecto leitoso. Sem saber o que fazer, ela pôs-se a caminhar em sua direção.

O chão tremeu sob seus pés. Uma lufada de ar quase a derrubou. Rochas deslizavam por todos os lados. O grupo correu, distanciando-se dela, fugindo do desmoronamento eminente.

O chão tremeu novamente, desta vez com mais intensidade. Pedaços de rochas desprenderam-se do teto, numa chuva de asteroides incandescentes. O chão a sua frente desmoronou formando um abismo. Um mar de lava a separava do grupo.

Precisa sair dali. Tinha que salvar o cristal, a pedra sagrada pela qual era a responsável e a guardiã.

Num gesto desesperado, ergueu as mãos numa evocação, desenhando símbolos mágicos no ar.

Um relincho forte fez disparar seu coração. Um gigantesco cavalo alado negro pousou ao seu lado, e se abaixou permitindo que ela subisse em suas costas.

Em segundos, elas haviam sobrevoado o mar de lava, e pousado no outro lado da caverna.

A criatura draconiana rugiu apressando-a. A mulher acariciou-lhe a clina e sem olhar para trás, cruzou a distância até a saída da caverna a passos largos.

Sua bela ilha, a terra de seus ancestrais estava afundando. Atlântida estava morrendo.

O holocausto, que tanto temiam, materializara-se derradeiramente.

Os membros da irmandade sumiram. Havia se perdido de seu grupo.

Barcos se afastavam da linha da costa.

Estava sozinha.

Ao avistar um pequeno barco, correu em sua direção. Aquela era sua rota de escape da ilha. Precisava chegar à costa. Precisava transportar o objeto mágico para um local seguro.

Ela subiu no barco, soltou as amarras, e começou a remar em meio ao mar revolto. Sabia que seus caminhos iriam se cruzar novamente. Era apenas uma questão de tempo.

A névoa do mar engoliu o barco.

A sensação de náusea tomou-a novamente.

A jovem abriu os olhos. Alguém a segurava. Os membros do círculo estavam a sua volta. Ela estava caída no chão frio.

Duas sacerdotisas se ajoelharam ao seu lado, examinando-a.

Mágica havia sido feita naquela noite. Após séculos, e muitas vidas, a Deusa havia devolvido a eles o décimo terceiro membro da irmandade.

Cuidadosamente, as sacerdotisas a ajudaram a se sentar. Os punhos da jovem estavam doendo. Dois enormes dragões em forma de braceletes haviam surgido em seus braços, como se gravados a fogo.

A sua volta, um alfabeto mágico havia sido desenhado sobre a terra poeirenta. Mesmo sem saber ler aquele dialeto milenar, a jovem sabia que a informação estava contida ali. Eram as coordenadas do objeto sagrado.

A guardiã da pedra sagrada havia finalmente retornado.

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Lançamento do Livro de Poesias “Fala sério, mais poesia?!”!

Hoje, vai rolar o lançamento do meu quarto livro, “Fala sério, mais poesia?!”, logo depois da 3ª Mesa Literária da FLIM, entitulada “E tu? Sou o tempo em versos!”, às 15h no Vicentina Aranha!

Corre que ainda dá tempo!

Espero vocês lá! ;)

Drika, out!

#FLIM2019 #festaliteromusical #parquevicentinaaranha #entradafranca #culturaparatodos #falasériomaispoesia #drikayar

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Engenharia Sexual

Drika Yar

Não há cunho sexual
Na engenharia ambiental

Enquanto a mecânica convencional
Se diverte com a terminologia pseudomoral

Tratamentos térmicos e superficiais
Tolerâncias geométricas e dimensionais

Estados Principais de Tensão…
Eixo principal de translação.

Peças macho e fêmea têm relacionamento,
O qual deveria ser sem igual!

Mas, quando há brochamento,
É mau sinal!

No ensaio de Fadiga da superfície de revolução,
A tensão flutua entre tração e compressão.

Mas se houver alongamento, há de haver estricção!
Aí, prepare-se para a desaceleração!

Não se esqueça da vibração, com seu perfil senoidal,
Ou da extrusão, com seu pistão axial.

Na fundição, quanto maior a complexidade da fêmea,
Mais delicado deve ser o macho, sua alma gêmea!

O passo do fuso, tão confuso,
Quanto os picos e vales do parafuso.

Usinagem química é mais adequada para avião,
E o ajuste fino da marreta, para canhão!

A ancoragem mecânica, apesar de estática dinâmica,
Não é âncora, nem peça mecânica!

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“Justiça ou Vingança?”

Drika Yar

Aquele físico é que estava certo quando elaborou a teoria de relatividade.

Sabe, tudo é relativo… ao ponto de vista de cada observador.

Tempo.

Espaço.

Amor.

Justiça.

Vingança.

Aliás, qual a diferença entre justiça e vingança?

O culpado diz que vingança não leva a lugar nenhum. Já quem sofreu a perda, clama por justiça através da punição dos culpados.

E como dados, meras informações processadas, podem ser manipulados, usados para gerar informações que paternalizem um ou outro lado, não há um consenso sobre qual é a verdade nua e crua – algo que por vezes, questionamos se existe.

De joelho sobre a grama aparada, sinto as lagrimas brotarem dos cantos dos meus olhos e se misturarem a chuva fina que precipita de um céu claro.

Um singelo faixo de luz atinge a lápide diante de mim. Um calafrio percorre meu corpo de forma senil.

– O que diabos está acontecendo comigo? – Aquela voz em minha cabeça pergunta retoricamente.

A umidade permeia meus ossos. A onda de calafrios se intensifica. A agonia de não a ter a meu lado só aumenta.

Cadê esse tempo que devia curar as feridas do coração?

Minhas pálpebras ardem. Meu coração bate descompassadamente como um tambor num rufar arrítmico.

A dor que me dilacera é devastadora.

O amor brotou lento, e como uma delicada flor custou a florescer nas terras áridas que protegem os corações dos guerreiros.

Um sorriso que eu não devia ter visto. As risadas toda vez que desalinhava meu cabelo, segundos antes da inspeção de nossos uniformes, e que por várias vezes me levaram a cumprir uma série de exercícios físicos a mais que os demais, pela falta de aprumo de minhas curtas madeixas.

Eu, organizado. Ela, eterno espírito de criança.

Eu, vivo. Ela, entregue ao infinito. 

Aqui, diante de mim, jaz minha felicidade. Aqui, já a honra que tanto cultivei. Aqui, começa a jornada que me guiará até o fim dos meus dias.

Uma jornada por vingança!

Vingança, não!

Justiça!

Nunca sonhei com um amor de uma mulher. Nem com família ou filhos. Estas eram distrações.

Bom, as mulheres… elas eram diversão.

Mas quando o amor derrubou a porta da catacumba onde eu trancafiara meu bem mais precioso, a raposa deixou de desdenhar, e agora saboreava a expectativa do doce néctar da uva.

Levanto-me cambaleante em meio a uma brisa que desalinha os fios do meu cabelo, e vejo seu sorriso dizendo-se que está tudo bem.

Queria eu ter esta certeza!

Mas, ela já não está mais aqui. Sua visão me assusta.

Sei que não posso perder a sanidade, e com isto meu foco.

Lembro com tristeza que forças ocultas haviam me escolhido para me tornar alguém melhor.

Um mentiroso melhor.

Um manipulador melhor.

Um assassino melhor.

Só que eu disse não.

Declinei a proposta tentadora pois o vácuo que havia em meu coração havia sido preenchido por algo menos importante e ostentador – o amor.

E, como o mal tem sempre que ter a ultima palavra, tiraram de mim justamente o que mais me era caro. Aquilo que colocar uma pedra em meu passado, afastando-me daquela trilha de caos e destruição.

Envenenada, agonizou e partiu em meus braços.

Após sua precoce perda, é ao caminho tortuoso e espinhento ao qual vou de encontro. O único caminho que julgo fará com que eles paguem pela interferência em nossas vidas.

Para isso, aliar-me-ei aos mais temidos e perigosos inimigos dos meus inimigos. Permitirei que me transformem no que eu mais repudio.

Um mentiroso patológico.

Um manipulador cruel.

Um assassino à sangue frio.

Sem honra.

Não foi um corpo que ardeu na pira hoje. Foram dois – o meu e o dela. Morri como o ser que minha amada tanto amou, e ressurjo das cinzas de nossos corpos como um novo eu.

Sádico.

Paciente.

Frio.

Calculista.

Um sorriso cínico se manifesta no canto esquerdo dos meus lábios em antecipação ao que virá.

Sou uma fênix.

Uma fênix de fogo.

Uma fênix de transmutação para os pecados alheios.

Não, não me chamo clamo por vingança!

Sou Farei justiça!

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Começou! Uhu!

É isso aí! A FLIM começou!

O Vicentina Aranha tá fervendo com autores, músicos, artistas e essa galera com uma vibe pra lá de legal que veio nos prestigiar!

Hoje estaremos aqui até as 22h!

Mas não fique triste se você não conseguir vir hoje, pois amanhã às 09:00 estaremos de volta! ;)

A escritora Drika Yar no Parque Vicentina Aranha!

#FLIM2019 #festaliteromusical #parquevicentinaaranha #entradafranca #culturaparatodos #falasériomaispoesia #drikayar

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“O teste de Daniels”

Drika Yar

A porta abriu-se lentamente, dando passagem a um homem de meia idade de estatura média, com os cabelos levemente prateados, o qual carregava em uma das mãos um pequeno dispositivo portátil de leitura e manipulação de dados.

Seus olhos escrutinaram a sala metálica e mal iluminada. Dentro do claustrofóbico recinto, havia apenas uma cadeira, uma mesa, e uma coisa, que remetia a uma pessoa em posição fetal acorrentada à parede diametralmente oposta à porta.

Antes de se sentar, o inquisidor fitou a criatura diante de si por alguns segundos em silêncio. Suas pupilas desabrochando como o obturador de uma arcaica máquina fotográfica.

Seu trabalho consistia em aplicar o teste sempre que a natureza de um indivíduo fosse questionada. Era o que permitia separar o joio do trigo. Heróis de covardes. Homens de seus brinquedos.

Sim. Os tempos mudaram, o ser humano conquistara as estrelas, e outros sistemas solares, mas sua essência mantinha-se a mesma.

Insegurança. Inveja. Desafeto. Estes sentimentos persistiam em levar o homem ao seu pior.  Tal como na Idade Média, delações ocorriam. E quando isso acontecia, os inquisidores eram chamados – pessoas comuns, como tr’An  – que havia sido treinadas para se desapegarem do que suas pupilas captavam, a fim de executarem à risca, o procedimento padrão, tomando por verdade o resultado do experimento.

Seu mundo, como inquisidor, se resumia a fatos e dados.

Porém, aquele era um caso peculiar.

A via de regra, nunca haviam lhe informado previamente qual o resultado esperado do teste. Mas aquele espécime era especial. Talvez o autômato mais inteligente que já existira. Os dois inquisidores anteriores não haviam chegado à conclusão alguma – perdidos entre os resultados pseudo-inconclusivos.

Agora, era seu trabalho verificar o que de fato era a criatura a sua frente: humano ou androide.

O futuro daquela coisa encolhida no canto da sala estava em suas mãos.

O inquisidor pousou o dispositivo sobre o tampo da mesa enquanto a criatura estudava-o em silêncio.

– Bom dia – Disse o inquisidor ao ligar o dispositivo, a fim de gravar a sessão. – Sou o Doutor Scender.

– Meu nome é K’Lab. – Respondeu a criatura sentando-se. – Mas você já sabe disso, não é?

O inquisidor assentiu, e baixou os olhos enquanto tomava notas em seu dispositivo.

– O que… – Indagou K’Lab com uma voz aflita. – O que vai acontecer comigo se eu não passar nesta bateria de entrevistas?

Boa pergunta, refletiu o inquisidor. Infelizmente, ele não podia oferecer qualquer tipo de resposta sincera ao entrevistado. Pelo menos, nenhuma que aplacasse sua ansiedade.

 – Cada um de nós tem uma função em nossa sociedade. Dependendo do resultado, você pode ser designado para outra atividade.

K’Lab inspirou profundamente cerrando os olhos por um segundo.  Pelo visto a explicação do médico não havia lhe dado nenhum conforto – muito pelo contrário. Agora, apertava as juntas de uma mão com um polegar, e depois a outra.

Scender tomou mais algumas notas antes de fitar novamente a criatura diante de si. Será que K’Lab sabia que seria submetido a uma variante do teste do Dr. A. Daniels?

O teste de Daniels era uma evolução do teste de Turing cujo propósito era identificar se uma máquina podia se comportar como um ser humano. Segundo Turing, o observador deveria interagir com a inteligência artificial (IA) para verificar se o comportamento condizia com o esperado por um ser humano, e se a IA seria capaz de perceber sua natureza artificial ou não.

Por outro lado, a abordagem de Daniels, a qual raramente era aplicada, consistia em inserir a IA entre humanos e deixar que interagisse por algum tempo. Ao fim da interação, todos deveriam identificar quais eram, de fato, humanos, e quais eram artificiais.

O teste também era capaz de avaliar se a IA havia atingido consciência, o que acontecia, se, e somente se, a IA descobrisse sua natureza artificial, e que ela mesma estava sendo testada.

Esteja preparado para o improvável! – Advertira seu chefe.

O médico aprumou-se na cadeira, de forma inconsciente. Era chegada a hora de começar o longo interrogatório.

A conversa avançou lentamente através de perguntas simples e curtas. Nome. RG. Data e Local de Nascimento. Nome dos pais. Endereço. Signo. Estado civil. Preferência sexual. Cor preferida. Comida preferida. Esportes que pratica. Hobbies. Último livro que leu. Pontos fortes. Defeitos. Sonhos e expectativas. Medos.

Scender fez uma pausa. Reabasteceu o nível de água em seu copo. Pediu que trouxessem uma cadeira para K’Lab, que optou por uma xícara de chá.

Hora de recomeçar.

– Você se julga um ser vivo? – Scender perguntou ao erguer a sobrancelha direita.

– Claro! – A voz firme dele carregava algo diferente.

– Se você tem consciência própria, ou caso acredite nisso, uma alma, como poderia demonstrá-lo?

Apesar de seu teor filosófico, a pergunta era padrão. A partir dela se iniciaria uma discussão que consistia do core – do núcleo – do teste.

– Se eu não fosse real, esta pergunta não me incomodaria.

– Não se tivesse sido programado para isso. – Contra-argumentou o inquisidor.

– E a você? Não incomoda esta situação? Afinal, sua decisão será pautada naquilo que você percebe, e não naquilo que é. Não existe como eliminar totalmente a subjetividade de uma tomada de decisão. O ser humano é tendencioso, de uma forma, ou de outra.

– Não sou tendencioso.

– Se percebesse isso, não o seria. – K’Lab tomou um gole de chá antes de prosseguir. – Mas, como não assume essa possibilidade, você está se predispondo ao erro.

Ironicamente, a criatura era capaz de discutir de forma bem elaborada, esquivando-se de responder as perguntas arremessadas em sua direção.

– Errar é humano! – Proferiu Scender.

– Será? Errar ao preço de vidas humanas não deveria ser.

– Você fugiu do foco da entrevista.

– Fugi. E o que você vai fazer? Tomar notas sobre meu comportamento antissocial e como isso poderia refletir o de um autômato? Me prender e me jogar numa cela? – K’Lab indicou a sala metálica a seu redor. – Estou ansioso pela mudança de ares.

– Se lhe contar como o teste é aplicado, ou como os resultados da entrevista são analisados, o teste perderia sua função.

– Não sei explicar o que sou.  – O entrevistado parecia ter se resignado a sua condição de ignorante frente a ciência envolvida naquele procedimento experimental. – Sinto que sou.

Scender fitou-o incrédulo. Por um segundo pensou ter conseguido retornar a linha de raciocínio da entrevista.

– Diz aí, doutor? Como passou no teste? O que disse para que o seu entrevistador lhe considerasse humano?

– Não estamos falando de mim.

Scender lembrava vagamente de seu teste. Não necessariamente do que respondera. Seus olhos esverdeados se fixaram na tela em branco de seu dispositivo. O teste de A. Daniels era um dos momentos mais importantes da vida de qualquer ser humano.

E porque Diabos não se lembrava do seu?

Haviam fragmentos. Imagens distorcidas e estilhaçadas. Míseros fractais. Mas nada representativo. Apenas o borrão distorcido do rosto de alguém dando tapinhas em suas costas e dizendo que ele havia sido aprovado.

Ainda assim, se lembrava de cada teste que aplicara.

Sua mente ia e vinha correndo de um lado para o outro. Roubando a atenção que deveria estar focada no teste de K’Lab e não em suas experiências passadas.

Mas a cratera abissal estava lá. E isso lhe deixava alheio a realidade a sua volta, como se as memórias fossem alheias.

O médico piscou e tornou a consultar a pauta da entrevista – uma longa lista de perguntas e insinuações a serem seguidos nas próximas horas.

Sua pulsação havia aumentado.

Não se sentia bem.

– Fale-me sobre sua infância – reiniciou Scender mantendo a voz distante.

Como esperado, as perguntas foram apresentadas, mas não necessariamente respondidas pelo entrevistado.

Lentamente, a sensação de desconforto aumentava.

Mãos frias. Suor brotando de suas frontes.  O coração apertado no peito. O tique nervoso indo e voltando.

E do outro lado da sala, só havia o vazio de uma existência que não era.

Finda a interminável lista de perguntas, o médico se levantou, colocando o dispositivo de volta no bolso do jaleco.

Os olhos do prisioneiro buscavam qualquer sinal de clemência, de compreensão, de esperança.

Humanos não confiavam em autômatos, especialmente, se eles tivessem consciência.

Se fosse considerado uma IA seria ejetado para o espaço sumariamente.

– Você não vai me dizer o resultado?

Scender já estava quase na porta da sala quando foi interpelado por K’Lab. O inquisidor não se dignou a se virar, simplesmente fitou-o por cima do ombro esquerdo. Seu olhar era tão frio que causara um arrepio em K’Lab.

 Sabia da importância de sua análise, mas isso pouco importava agora. O laudo já havia sido elaborado. Não precisara usar de qualquer meio mais persuasivo para obter as respostas para as suas perguntas.

Aliás, a ausência de respostas é o que lhe guiara à conclusão que tanto lhe incomodara segundos antes.

Pousando a mão sobre o leitor biométrico, o inquisidor destravou a porta.

– Bon voyage!  – Scender anunciou ao deixar o depósito de lixo que lhe servira de sala de interrogatório.

Tão logo a porta se fechara atrás do inquisidor, as algemas de K’Lab caíram no chão, desativadas.

Um ruído forte metálico anunciou o desfecho enquanto uma das paredes da sala se movia, expondo o recinto e seu ocupante ao frio absoluto do espaço profundo.

Do outro lado da porta, Scender observada a cena.

Sua decisão havia sido pautada na lógica. E a lógica podia ser tão traiçoeira quanto a falta dela.

E a única explicação plausível era que um deles era humano e o outro uma inteligência artificial dotada de consciência.

Mas quem era o quê?

O resultado do teste de K’Lab havia sido inconclusivo. Porém, enquanto fazia as perguntas a ele, Scender também fazia as mesmas a si. E, não gostara nem um pouco das respostas que encontrara e das que não encontrara.

Por fim, percebeu que se fosse um androide, não seria capaz de infringir as leis da robótica. Ou seja, não pode ferir um ser humano ou permitir que este sofresse algum mal. Não poderia seguir ordens que colocassem em risco ou ferissem um ser humano. E deveria ser capaz de abrir não de sua própria existência, para a proteção de um ser humano.

Ser humano era ser capaz de matar outra pessoa.

Foi isso que acabara de fazer. Condenara alguém a um fim monstruoso.

Mas, e se ao desenvolver emoções, um androide considerasse sua existência tão valiosa quanto a de um ser humano? E, se o desenvolvimento de uma consciência por uma inteligência artificial o aproximasse tanto de um ser humano ao ponto de evoluir para a desobediência às leis divinas da robótica?

Esta última pergunta permanecia sem resposta em sua mente.

– Foda-se!

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Falta 1 dia!

Jeans separado, camiseta passada, mochila pronta e o tênis “engraxado”! ;)

Isso aí, moçada, menos de 24 horas pra iniciar a FLIM.

Coração mil, além de muita ansiedade e expectativa, né?

Mas já, já, a festa vai começar!

Amanhã, sexta-feira às 18h, no Parque Vicentina Aranha!

Espero vcs lá!

Drika, out!

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