“O primeiro Cavaleiro”

Drika Yar

A Terra Santa era, acima de tudo, inóspita.

Karīm Ibn Maħmūd al-Azīz, o líder dos infiéis, cuspiu sobre seu rosto com desdém. O infiel esbravejou algo ininteligível, depois lhe disse um latim rudimentar que aquilo era só o início. Prometeu caçar e matar todos os europeus que ali colocassem seus pés. Clamava vingança, pois um cavaleiro havia raptado, violentado, e depois matado sua única filha.  

Por Alá, ele iria se vingar.

E começaria pelo velho diante dele.

O velho cavaleiro cogitou contra-argumentar. O infiel tinha motivos mais do que suficientes para desejar vingança. Infelizmente, ele e seus homens não eram os vilões. E mesmo se o fossem, vingança não traria a filha de Al-Azīz de volta. Qualquer tentativa de diálogo estava fadada ao fracasso.  O infiel tinha o olhar de um predador, e não descansaria enquanto não saciasse sua fome doentia por vingança.

O chicote de finas tiras de couro impactou contra suas costas mais uma vez. O cavaleiro fechou os olhos por um segundo, suspirando entre um espasmo e outro de dor.

Seu corpo estava dilacerado. Clamava por descanso. Mas su’alma empurrava-o adiante. Não se renderia a eles. Não iria gemer. Não daria este prazer a seus captores. 

Até quando aguentaria?

O líder dos infiéis sorriu sadicamente, e o torturador balançou o açoite no ar.

Seus olhos se fecharam com mais uma chibatada da nova sessão de tortura. Tinha que manter a razão. Precisava manter-se acordado, lúcido. Ele abriu os olhos e sorriu. A imagem de um anjo formou-se diante dele.

Estou morrendo, pensou. Eis que o Senhor enviou anjos para me recepcionarem.

A criatura alada aproximou-se e sussurrou-lhe algo.

Suas pálpebras pesaram, e quando abriu os olhos o anjo não estava mais lá.

Seu destino, bem como o de seus homens, estava traçado. Morreria em questão de minutos, talvez horas.

O cavaleiro se recordou de sua captura, tão logo deixaram a proteção das largas muralhas de pedra da cidade prometida.

Haviam sido traídos. Isso era certo!

Mas por quem?

Seu infortúnio havia começado quando um jovem e ambicioso monge havia lhe convencido sobre a necessidade de levar os cristãos a voltarem a acreditar em Deus e a lutar pela reconquista e manutenção dos territórios da Terra Santa.

Entre uma e outra conversa, o religioso havia sugerido que somente um grupo formado por nobres cavaleiros seria altruísta o suficiente para realizar esta jornada épica. A missão confiada a eles era bem simples: escavar um local específico em busca de um artefato único e místico, o cálice da Santa Ceia.

Temendo que as mortes por ele impetradas durante o calor dos combates da primeira cruzada o proibissem de atravessar os portões celestiais, o velho cavaleiro havia convencido outros oito nobres a o acompanharem à Terra Santa nesta cruzada sagrada.

O Rei de Jerusalém, a quem chamavam de Patriarca, fora extremamente solícito, ao recepcioná-los anos antes e ao permitir que ele e outros nobres se instalassem nas estrebarias de uma antiga mesquita da cidade, onde, diziam os antigos, jaziam as ruínas do Templo de Salomão.

A fim de ocultar seu real propósito, haviam dito ao Patriarca de Jerusalém que almejavam patrulhar as rotas por onde os peregrinos rumavam a Jerusalém para assegurar-lhes uma passagem segura.

Após anos de privações em meio ao calor escaldante e a dupla jornada de patrulhar as rotas dos peregrinos de dia e escavar os escombros do antigo templo à noite, eles haviam finalmente encontrado o que buscavam. 

Estavam retornando para França a fim de entregarem a regalia sagrada ao jovem monge quando foram capturados e arrastados para as ruínas de uma antiga fortaleza.

Assim como ele, seus homens sofriam subjugados pelo inimigo. Foram despidos e presos a cavaletes de madeira, onde ficavam de joelhos sobre o chão pedregoso com o pescoço e os punhos presos. A situação em si era irônica.  Afinal, aquele instrumento era usado por cruzados para imobilizar os infiéis, intimidando-os e causando inicialmente desconforto, e posteriormente dor, mesmo quando a sessão de tortura era interrompida.

Mais um pecado pelo qual pagamos sem sermos os culpados, ó Senhor!

Al-Azīz gritou algo num dialeto que ele não conhecia e indicou com a cabeça algo que pendia sobre a mesa. O carrasco se afastou, largando a cimitarra com a qual ameaçava cortar lhe a mão direita, sumindo nas sombras por um segundo e retornando com um tipo mais elaborado de chicote, cujas tiras exibiam nas extremidades pedaços de pedras afiadas.

O chicote lhe dilacerou a pele das costas mais profundamente desta vez. Um a um, os outros cavaleiros foram submetidos ao mesmo augúrio. Seus urros de dor e frustração infringiam ainda mais pesar na alma cansada do velho cavaleiro.

Com um sorriso maquiavélico, Al-Azīz retirou o cálice sagrado de uma das sacolas e coletou o sangue que escorria de suas feridas com a regalia sagrada. Sempre rindo de maneira doentia, o infiel fez o mesmo com todos os outros cavaleiros.

Após ter recolhido seu sangue, o infiel gargalhou e ofereceu o conteúdo do cálice aos cavaleiros que estavam a vários dias sem água. Para matarem sua sede, um preço deveria ser pago: eles teriam que abençoar o conteúdo da taça com uma oração em latim, demonstrando heresia e falta de respeito pelo sagrado.

Estavam mortos. Seu corpo não resistiria. As palavras de seu algoz eram interrompidas por diversas perdas de consciência. Precisava liberar seus homens de qualquer culpa. Se alguém teria que fazê-lo, ele seria o único a ir ao Inferno por este pecado. 

 – Fazei de mim vosso instrumento. – O velho cavaleiro orou em latim. – Não por nós, Senhor, mas em nome de Tua Glória.

O conteúdo do cálice foi derrubado sobre sua boca, e ele desfaleceu enquanto seus homens repetiam bravamente a oração por ele proferida.

O cavaleiro ergueu os olhos mais uma vez.

Suas forças se esvaiam.

Eles o perfuraram com uma cimitarra no abdômen. Rindo, o desamarraram e o retiram do cavalete, jogando seu corpo inerte no chão arenoso.

Os demais cavaleiros mantiveram o olhar fixo em seu mestre durante seus minutos finais. Não desviaram o olhar. Morreriam como homens, não como ratos. Eram, acima de tudo, cavaleiros. Lutariam até seu último sopro de vida. E um a um, eles foram estocados com a cimitarra e seus corpos abandonados ao redor da sala de tortura.

Os infiéis voltaram para amarrar o corpo do líder dos cavaleiros a um cavalo para deixá-lo ao sabor das aves de rapina.

Afastando seus homens, Al-Azīz se abaixou para examinar melhor o corpo do defunto.

Agindo por instinto, o cavaleiro apanhou um punhado de areia e jogou sobre os olhos de Al-Azïz. Em meio a sua falta de orientação, o cavaleiro puxou uma pequena adaga do cinto do infiel e o esgortejou. Estupefatos, os demais não foram capazes de reagir ao ataque do velho cavaleiro.

Sem titubear, o velho cavaleiro avançou contra seus opressores, matando-os um a um. Somente depois de ter eliminado os infiéis, o cavaleiro sentou-se sobre um tronco caído para examinar seus ferimentos.

Diante de seus olhos incrédulos, as feridas de seu corpo se fecharam miraculosamente.

Não podia entender o que havia acontecido ali. Como Deus poderia ter intercedido?

Foi então que seus olhos esbarraram em algo caído no chão. O cálice sagrado. O mesmo cálice que havia sido profanado com o sangue deles havia lhe curado as feridas.

Deus o havia salvo por um motivo. Iria manter sua promessa. Enquanto vivesse, ele e os homens sobre seu comando se converteriam a santa Igreja, tomariam o hábito para lembrar-lhes de que seus votos eram perpétuos, e trabalhariam dia após dia para zelarem pelo bem-estar daqueles que peregrinavam pela Terra Santa.

Fundaria uma Ordem.

Uma Ordem de Monges Guerreiros.

Uma Ordem de Cavaleiros.  E assim o fez, Hugues de Payens

Sobre Drika Yar

A autora nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1971. Curiosa e questionadora, sempre buscou formas diferentes de olhar para as coisas a sua volta, talvez, daí tenha surgido o interesse pela área de exatas. Seu gosto pela leitura e, posteriormente, pela escrita aflorou ainda na adolescência em meio sua fascinação por ficção científica, bem como, pelos contos e lendas das Eras Antiga e Medieval.
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