“A Guardiã”

Drika Yar

Natureza era algo que não faltava a sua volta.

Os veículos ficaram estacionados ao lado de uma cachoeira, enquanto o grupo formado por doze membros da irmandade e três convidados, se embrenhava pela mata.

Após alguns minutos de caminhada pela floresta, a mata se fechara sobre a trilha. Era impossível segui-la sem olhos bem treinados. Por uma hora se esgueiram por um tênue caminho de terra batida, até que o grupo parou diante de uma ampla clareira delimitada por pinheiros e cedros. No centro da clareira, havia sido construído um pequeno círculo com pedras roladas de rio.

Em segundos, os membros da irmandade trocaram suas roupas de caminhada por largas vestes brancas, e sobremantos coloridos.

Descalços, os membros da irmandade pareciam imunes à brisa gélida que os acoitava. Tochas haviam sido acesas e colocadas em cada um dos portais que marcavam os pontos cardeais.

Homens e mulheres se deslocaram pelo interior do círculo, ao ritmo de um pequeno tambor, intercalando-se ao longo do perímetro do círculo, equilibrando o fluxo de energia masculina-feminina.

De súbito, o retumbar do tambor cessou, anunciando o início da fase de preces, músicas e exaltações.

Onde estava com a cabeça quando aceitara o convite? Até cerca de uma hora atrás, nunca havia visto aquelas pessoas, mas ainda assim sentia que as conhecia há muito tempo. Sentia se confortável a volta deles.

Misteriosamente, os acontecimentos dos últimos e meses haviam se desenrolado como se qualquer caminho que tomasse sempre convergisse para o mesmo local no tempo e no espaço.

De certa maneira, toda sua vida havia sido assim. Era como se ela buscasse algo, mas não soubesse ao certo o quê, ou por quê.

Ao longo dos anos, livros caíram em seu caminho, trazidos por pessoas diferentes sempre ao mesmo tempo. Por vezes, entrara em lojas de joias, e saíra com um bracelete ornado com nós celtas, o qual adquirira numa compulsão extremamente irracional.

Até três noites atrás, ela não imaginava que presenciaria um ritual tão antigo. A Velha Religião era tão ou mais antiga que a humanidade no Velho Continente, mas quase desconhecido em solo tupiniquim.

Apesar do fascínio pela Velha Religião, ela nunca havia se afiliado a nenhum grupo. Tinha uma postura discreta. Somente aos amigos mais íntimos admitia seu interesse no tema. Preferia manter-se no anonimato, como uma observadora. Como aquelas pessoas haviam descoberto sua existência era um mistério.

Certa noite, ela recebeu um telefonema de um desconhecido convidando-a para assistir ao ritual. Sem titubear, ela aceitou o convite. Era como se conhecesse o interlocutor há séculos.

O vento congelante trouxe sua mente de volta à realidade. Além dela, outras duas pessoas estavam ali, sentadas diante do círculo de pedras, para assistirem ao cerimonial que se iniciava.

Ela puxou uma manta sobre seus ombros, tentando manter-se aquecida.

No círculo, uma bruma desceu sobre os membros da irmandade, intensificando a sensação de que alguma coisa grande estava para acontecer. A medida que os cânticos se intensificavam, e a magia começa a permear a noite, os outros dois visitantes se levantaram e balbuciando uma desculpa esfarrapada, recolheram suas coisas e se embrenharam na mata, como se fugissem de uma assombração, deixando-a sozinha do lado de fora do círculo.

Uma a uma, as sacerdotisas ergueram os braços dando início ao ritual, evocando a proteção dos elementos e a presença de seus elementais.

Ao Norte, no elemento terra, uma borboleta surgiu e, ao tocar o solo, transmutou-se em fadas, duendes e gnomos. No portal do Oeste, uma onda ergueu-se de uma taça de cristal e uma pequena cauda de sereia fez se mostrar. No Sul, o portal do fogo, a batida de um cajado sobre o chão batido de terra fez voar línguas de fogo que acenderam a majestosa fogueira. No Leste, o elemento ar se apresentou através da fumaça um turíbulo que dançava, revelando a forma de elfos esguios e pequenas serpentes de ar.

Na fogueira, as labaredas pareciam vivas, como se pulassem de um lado para o outro acompanhando a melodia dos cânticos.

O frio e cansaço se abateram sobre a visitante. Suas pálpebras tremularam ao tentar manter-se acordada. Seu corpo ia para frente e para trás, como um brinquedo de criança.

Olhou o poste diante dela. Inconscientemente, ela havia se posicionado ao lado do pórtico sul do círculo de pedras, o portal do elemento fogo. Nem mesmo as várias tochas fincadas no poste e no chão do círculo ajudavam a lhe esquentar ou superar a tremedeira de frio.

Ela se encolheu ainda mais em seu banco, fechando a manta sobre seu tórax.

Algo estava errado. Talvez devesse ter fugido como os outros dois.

Seus pés estavam formigando, dormentes. À medida que o ritual se desenrolava a sensação se intensificava. Mexia os pés de um lado para o outro, buscando melhorar a circulação em vão.

Em segundos, o formigamento já havia se alastrado até seus joelhos, e agora avançava por suas coxas. Sentiu-se enjoada, com vontade de vomitar. Era um alívio que não comera quase nada. Sua euforia lhe tirara a fome e ela havia apenas consumido apenas frutas e uma sopa leve de legumes na hora do almoço.

Seus olhos se fixaram na imensa fogueira no centro do círculo. Algo estava se mexendo ali. Ela apertou os olhos, desfocando a visão para enxergar melhor.

Pequenos seres na forma de gotas de fogo saltavam de um lado pra o outro das chamas. Eram salamandras.

Ela respirou profundamente, buscando se acalmar. Sabia que era capaz de alterar seu estado de consciência, mas nunca imaginou que a simples proximidade com um círculo ritualístico pudesse catapultá-la para tal estado.

A fumaça do incenso ao seu lado serpenteava pelo ar, desenhando formas estranhas, como uma mão que gesticulava, chamando-a.

Sentira uma nova onda de náusea tomar seu corpo.

O ambiente a sua volta tornara-se turvo e enevoado. Sua consciência, que flutuava sobre seu corpo inerte, adentrou no círculo.

Não estava mais na floresta.

Fora transportada para outra época, para outro lugar.

Os membros da irmandade a aguardavam alguns metros a diante. Ela vestia a mesma túnica que eles, mas seu sobremanto era vermelho. Em suas mãos carregava um cristal em formato de ovo com aspecto leitoso. Sem saber o que fazer, ela pôs-se a caminhar em sua direção.

O chão tremeu sob seus pés. Uma lufada de ar quase a derrubou. Rochas deslizavam por todos os lados. O grupo correu, distanciando-se dela, fugindo do desmoronamento eminente.

O chão tremeu novamente, desta vez com mais intensidade. Pedaços de rochas desprenderam-se do teto, numa chuva de asteroides incandescentes. O chão a sua frente desmoronou formando um abismo. Um mar de lava a separava do grupo.

Precisa sair dali. Tinha que salvar o cristal, a pedra sagrada pela qual era a responsável e a guardiã.

Num gesto desesperado, ergueu as mãos numa evocação, desenhando símbolos mágicos no ar.

Um relincho forte fez disparar seu coração. Um gigantesco cavalo alado negro pousou ao seu lado, e se abaixou permitindo que ela subisse em suas costas.

Em segundos, elas haviam sobrevoado o mar de lava, e pousado no outro lado da caverna.

A criatura draconiana rugiu apressando-a. A mulher acariciou-lhe a clina e sem olhar para trás, cruzou a distância até a saída da caverna a passos largos.

Sua bela ilha, a terra de seus ancestrais estava afundando. Atlântida estava morrendo.

O holocausto, que tanto temiam, materializara-se derradeiramente.

Os membros da irmandade sumiram. Havia se perdido de seu grupo.

Barcos se afastavam da linha da costa.

Estava sozinha.

Ao avistar um pequeno barco, correu em sua direção. Aquela era sua rota de escape da ilha. Precisava chegar à costa. Precisava transportar o objeto mágico para um local seguro.

Ela subiu no barco, soltou as amarras, e começou a remar em meio ao mar revolto. Sabia que seus caminhos iriam se cruzar novamente. Era apenas uma questão de tempo.

A névoa do mar engoliu o barco.

A sensação de náusea tomou-a novamente.

A jovem abriu os olhos. Alguém a segurava. Os membros do círculo estavam a sua volta. Ela estava caída no chão frio.

Duas sacerdotisas se ajoelharam ao seu lado, examinando-a.

Mágica havia sido feita naquela noite. Após séculos, e muitas vidas, a Deusa havia devolvido a eles o décimo terceiro membro da irmandade.

Cuidadosamente, as sacerdotisas a ajudaram a se sentar. Os punhos da jovem estavam doendo. Dois enormes dragões em forma de braceletes haviam surgido em seus braços, como se gravados a fogo.

A sua volta, um alfabeto mágico havia sido desenhado sobre a terra poeirenta. Mesmo sem saber ler aquele dialeto milenar, a jovem sabia que a informação estava contida ali. Eram as coordenadas do objeto sagrado.

A guardiã da pedra sagrada havia finalmente retornado.

Sobre Drika Yar

A autora nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1971. Curiosa e questionadora, sempre buscou formas diferentes de olhar para as coisas a sua volta, talvez, daí tenha surgido o interesse pela área de exatas. Seu gosto pela leitura e, posteriormente, pela escrita aflorou ainda na adolescência em meio sua fascinação por ficção científica, bem como, pelos contos e lendas das Eras Antiga e Medieval.
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