“Justiça ou Vingança?”

Drika Yar

Aquele físico é que estava certo quando elaborou a teoria de relatividade.

Sabe, tudo é relativo… ao ponto de vista de cada observador.

Tempo.

Espaço.

Amor.

Justiça.

Vingança.

Aliás, qual a diferença entre justiça e vingança?

O culpado diz que vingança não leva a lugar nenhum. Já quem sofreu a perda, clama por justiça através da punição dos culpados.

E como dados, meras informações processadas, podem ser manipulados, usados para gerar informações que paternalizem um ou outro lado, não há um consenso sobre qual é a verdade nua e crua – algo que por vezes, questionamos se existe.

De joelho sobre a grama aparada, sinto as lagrimas brotarem dos cantos dos meus olhos e se misturarem a chuva fina que precipita de um céu claro.

Um singelo faixo de luz atinge a lápide diante de mim. Um calafrio percorre meu corpo de forma senil.

– O que diabos está acontecendo comigo? – Aquela voz em minha cabeça pergunta retoricamente.

A umidade permeia meus ossos. A onda de calafrios se intensifica. A agonia de não a ter a meu lado só aumenta.

Cadê esse tempo que devia curar as feridas do coração?

Minhas pálpebras ardem. Meu coração bate descompassadamente como um tambor num rufar arrítmico.

A dor que me dilacera é devastadora.

O amor brotou lento, e como uma delicada flor custou a florescer nas terras áridas que protegem os corações dos guerreiros.

Um sorriso que eu não devia ter visto. As risadas toda vez que desalinhava meu cabelo, segundos antes da inspeção de nossos uniformes, e que por várias vezes me levaram a cumprir uma série de exercícios físicos a mais que os demais, pela falta de aprumo de minhas curtas madeixas.

Eu, organizado. Ela, eterno espírito de criança.

Eu, vivo. Ela, entregue ao infinito. 

Aqui, diante de mim, jaz minha felicidade. Aqui, já a honra que tanto cultivei. Aqui, começa a jornada que me guiará até o fim dos meus dias.

Uma jornada por vingança!

Vingança, não!

Justiça!

Nunca sonhei com um amor de uma mulher. Nem com família ou filhos. Estas eram distrações.

Bom, as mulheres… elas eram diversão.

Mas quando o amor derrubou a porta da catacumba onde eu trancafiara meu bem mais precioso, a raposa deixou de desdenhar, e agora saboreava a expectativa do doce néctar da uva.

Levanto-me cambaleante em meio a uma brisa que desalinha os fios do meu cabelo, e vejo seu sorriso dizendo-se que está tudo bem.

Queria eu ter esta certeza!

Mas, ela já não está mais aqui. Sua visão me assusta.

Sei que não posso perder a sanidade, e com isto meu foco.

Lembro com tristeza que forças ocultas haviam me escolhido para me tornar alguém melhor.

Um mentiroso melhor.

Um manipulador melhor.

Um assassino melhor.

Só que eu disse não.

Declinei a proposta tentadora pois o vácuo que havia em meu coração havia sido preenchido por algo menos importante e ostentador – o amor.

E, como o mal tem sempre que ter a ultima palavra, tiraram de mim justamente o que mais me era caro. Aquilo que colocar uma pedra em meu passado, afastando-me daquela trilha de caos e destruição.

Envenenada, agonizou e partiu em meus braços.

Após sua precoce perda, é ao caminho tortuoso e espinhento ao qual vou de encontro. O único caminho que julgo fará com que eles paguem pela interferência em nossas vidas.

Para isso, aliar-me-ei aos mais temidos e perigosos inimigos dos meus inimigos. Permitirei que me transformem no que eu mais repudio.

Um mentiroso patológico.

Um manipulador cruel.

Um assassino à sangue frio.

Sem honra.

Não foi um corpo que ardeu na pira hoje. Foram dois – o meu e o dela. Morri como o ser que minha amada tanto amou, e ressurjo das cinzas de nossos corpos como um novo eu.

Sádico.

Paciente.

Frio.

Calculista.

Um sorriso cínico se manifesta no canto esquerdo dos meus lábios em antecipação ao que virá.

Sou uma fênix.

Uma fênix de fogo.

Uma fênix de transmutação para os pecados alheios.

Não, não me chamo clamo por vingança!

Sou Farei justiça!

Sobre Drika Yar

A autora nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1971. Curiosa e questionadora, sempre buscou formas diferentes de olhar para as coisas a sua volta, talvez, daí tenha surgido o interesse pela área de exatas. Seu gosto pela leitura e, posteriormente, pela escrita aflorou ainda na adolescência em meio sua fascinação por ficção científica, bem como, pelos contos e lendas das Eras Antiga e Medieval.
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