O Cascão no trânsito

por Drika Yar

Quando o Ford T foi lançado, Henry Ford disse que ele seria produzido em qualquer cor, desde que fosse preto.

A celebre frase apesar de ter sido muito contada em tom de piada é verdadeira.

Todavia, ao longo dos anos, esta restrição quanto a cor da pintura dos carros caiu por terra, e durante boa parte dos anos que nos separam de Henry Ford e do lançamento do Ford T, era possível encontrar quase todas as cores do arco-íris nas ruas das cidades brasileiras.

Bom, isso até algum infeliz começar a dizer que carro de cor prata não sujava e tinha maior valor de revenda.

De lá pra cá, a tonalidade prata (ou cinza) ganhou outros rótulos, como, não mostra os riscos, é elegante, tem maior facilidade na revenda, etc.

Ruas coloridas, agora, só se pedirmos aos grafiteiros para dar uma corzinha aqui e ali. Nossas ruas perderam a cor, e com ela a alegria. A exuberância contagiante que emanavam cedeu espaço a monotonia apática que só as nuvens cinzentas de uma tarde tempestuosa trazem.

Pessoalmente, nunca pensei muito em cores de carros, mas há alguns anos atrás durante a aquisição de um veiculo zero km, me ofereceram a tal pílula prateada. Ou esperava 60 dias pela carro vermelho que eu queria, ou podia levar na hora o pratinha que estava no estoque. E lá veio o tal do vendedor buzinar todas as vantagens de carros cor prata na minha orelha.

Já que o prata tinha tantas vantagens – pensei. – por que não?

Uma semana depois, lá estava eu com o meu possante – 0 “surfista prateado” – a cruzar as ruas da cidade.

Feliz? Quem dera!

De boa, se arrependimento matasse, tinha caído dura no chão, totalmente fulminada.

– Por quê ? – me perguntavam os amigos “entendidos” a mecânico com um olhar do tipo ‘esta aí só pode ser louca’. Aliás, já reparam que quase todo homem se acha “O” mecânico? Bom, voltando…

E eu, cá com um sorriso nos lábio começava a enumerar as desvantagens desta cor tão desejada e valorizada pelos pseudos machos-alfa.

Por onde começar?

Maior valor de revenda? Pra quem, cara pálida? Só se for pro dono da concessionária, por que percentualmente eu perdi tanto dinheiro na revenda quanto em qualquer um dos outros carros que já tive e vendi. Alias, se considerarmos que carro prata é mais caro só por que é prata, a perda é maior, por que você paga mais na aquisição e vende pelo mesmo valor que venderia um carro, por exemplo, verde limão.

Não aparece risco? Só alguém que seja cego pra não ver os riscos na pintura de um carro prata ou de qualquer outra cor. Tudo bem, vai que é a presbiopia, né? Sabe quando a mão vai ficando curta?

Não aparece a sujeira? De boa, acho que foi o Cascão que começou com este lance de não lavar carro por que o cinza (ou prata) esconde. Suja tanto e quanto os outros carros. E ela é nítida. Agora pense comigo. Você deixaria de tomar banho por que sua pele é ‘prateada’ e esconde a sujeira? Me poupe! Isso pra mim é papo de quem não gosta de tomar banho!

Por outro lado, cores captam  melhor a nossa atenção. É por isso que o semáforo (sinal, sinaleiro ou farol) tem lâmpadas coloridas (verde, amarelo e vermelho). Se trocassem uma das lâmpadas do semáforo por cinza você as veria de longe? Não, né?

Só que ‘essa ilusão de ótica’ do cinza que não é percebido, também acontece no transito. Carro colorido todo mundo vê de longe. Já o cinza/prata? Agora imagino que você deva estar se perguntando porque nunca percebeu isso, ou como isso é possível? Vamos lá. A cor prata pode passar desapercebida por que se confunde com a cor do asfalto. Resultado? é muito mais fácil você não notar um carro cinza/prata pelo retrovisor do que um colorido.

Finalizando, o dia em que troquei meu “surfista prateado” por um carro colorido foi o dia mais feliz da minha vida.

Desde então entendi como a cor alegre de um carro me contagia sempre que eu o vejo, seja na minha garagem ou num estacionamento. Talvez isso seja por que o prata cuja cor original é uma variante do cinza remeta a apatia.

Tudo que é chato é acinzentado.

Se você perder um jogo, não receberá uma medalha de ouro, mas de prata.
A poluição que se eleva das fábricas e das cidades é cinza. As próprias selvas de pedra são sempre retratadas na cor cinza. Até os túmulos são cinza!!! E vamos e convenhamos, quem em sua sã consciência gosta de sair de casa num dia nublado? Nublado = Cinza! ;)

Agora, imagine o céu pintado com um cerúleo claro com o astro-rei derramando seus raios dourados sobre nós. Qual a primeira coisa que lhe vem a cabeça? Um largo gramado? Passeios ao ar livre?

No meu caso, imediatamente, surge a imagem de crianças correndo pela areia da praia atrás de uma bola enorme com gomos coloridos, o que me faz sorrir.

Pois é, cor é vida!

Sobre Drika Yar

A autora nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1971. Curiosa e questionadora, sempre buscou formas diferentes de olhar para as coisas a sua volta, talvez, daí tenha surgido o interesse pela área de exatas. Seu gosto pela leitura e, posteriormente, pela escrita aflorou ainda na adolescência em meio sua fascinação por ficção científica, bem como, pelos contos e lendas das Eras Antiga e Medieval.
Esse post foi publicado em Crônica, Prosa. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s